Sem condições de irrigação, por falta de água e elevado custo de energia elétrica, está difícil produzir capim para o gado
Iguatu. A escassez de água nas propriedades rurais, o elevado custo de produção e o preço aquém das despesas estão inviabilizando, para os pequenos e médios criadores, a manutenção de unidades produtoras de leite. O quadro é de dificuldades e o cenário é desanimador. Resultado: a oferta do produto começa a cair e o Ceará corre o risco de paralisação da atividade em todas as regiões produtoras.
No município de Jucás, o produtor Edmilson Queiroz já tomou uma decisão radical: vai paralisar com a produção de leite e passar a cultivar banana. "Aqui nós temos água, mas o preço pago ao produtor pelo litro do leite não cobre as despesas", disse. O pecuarista, Amauri Carneiro, recentemente, decidiu reduzir, mas já pensa em suspender atividade leiteira em Iguatu. A reclamação é a mesma: "o preço do leite não compensa".
Essa é uma tendência que vem se espalhando no sertão cearense, segundo o presidente do Sindicato Rural de Quixeramobim, Cirilo Vidal. "O preço do litro do leite no Semiárido nordestino sempre esteve cerca de 30% acima da média nacional, pois outras regiões são mais favorecidas", explicou. "Agora ocorreu o inverso, nas outras regiões, o preço é melhor".
Vidal chama a atenção para o fato de que o baixo valor pago pelo litro de leite no Ceará, que varia entre R$ 1,10 e R$ 1,40, ocorre em um dos piores momentos em que setor agropecuário atravessa. São cinco anos seguidos de seca, fim das reservas hídricas, aumento dos insumos e enormes dificuldades de manutenção do rebanho.
Redução
Se o quadro atual persistir, Iguatu corre o risco de ter uma redução drástica da bacia leiteira, que é a terceira do Estado, atrás do Sertão Central e do Médio/Baixo Jaguaribe. A avaliação é de técnicos e criadores de gado de leite. "Isso deve ocorrer em todas as regiões", observa o veterinário, Mauro Nogueira.
A saca de milho de 60 quilos subiu para R$ 68,00 e a de soja, de 50 quilos, custa R$ 95,00. Sem condições de irrigação, por falta de água e elevado custo de energia elétrica, está difícil produzir capim para o gado. Muitos criadores também precisam adquirir a forragem.
Raimundo Reis, consultor da empresa Leite & Negócios, observa que o momento é crítico. "Temos uma combinação de fatores negativos, a crise hídrica, o aumento do preço dos grãos (milho e soja) e estabilidade do preço do leite que não reagiu", explicou. "Tudo isso está criando um momento muito delicado, difícil para os produtores".
Queda
Em outras palavras, a atividade está ficando inviável para muitas unidades produtoras. "Se não houver chuvas intensas, recarga dos reservatórios a partir de janeiro do próximo ano, o Ceará corre o risco de parar a produção agropecuária. Não há dado oficial, mas já houve queda na captação de leite", garante Reis. Desde o ano passado que criadores estão diminuindo a quantidade de animais nas fazendas como estratégia para enfrentar a dificuldade de alimentação e de matar a sede dos animais. "Não há nada que se compare com a falta de água. Inviabiliza a criação".
Raimundo Reis complementa: "O momento reclama uma articulação entre criadores de gado de leite, indústria e governo. Os produtores precisam se manter vivos. O setor precisa conversar, definir estratégias comuns". Estima-se que 65% da produção são destinados às quatro grandes indústrias e 35% para pequenos laticínios e queijarias. Cerca de 30 pequenos laticínios fecharam no Ceará. Em Quixeramobim, laticínios locais têm capacidade de beneficiar 70 mil litros de leite por dia, mas operam apenas com 10% dessa capacidade.
por Honório Barbosa - Colaborador
( Fotos: Honório Barbosa )
Blog: Diário Regional.

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